Saturday, March 1, 2008

Ressaca do Abandono

Tem dias que são assim mesmo e nada mais adequado para hoje que esse conto de Mr Lok, inspirado em alguns amigos. Bem, eu sou um desses amigos.

RESSACA DO ABANDONO


Um amigo me ligou pela manhã, eram por volta das 9:00h, enquanto eu estava de porre e tentei sacaneá-lo:

- Alô?! Quinto distrito... da carceragem, o que você quer?!

- Mal aí, bebendo a essa hora?

- Não enche o saco, estou de porre.

- Pensei que a gente podia...

- A gente não pode nada agora.

- Escuta, me preocupo com você e estou indo pra a sua casa agora!

- Desencana, estou pegando aquele provinciano, o Serrana das 9:30h!

- PRA QUE?!

- Não sei, ADEUS!!

Daquele momento em diante, um inóspito divisor de águas se adentrou em nossas vidas separando dois destinos... eu acho que ele se chamava bebida, ou talvez ordinariamente fosse o álcool, a bem da verdade a sobriedade não é uma de minhas virtudes, mas isso não vem ao caso por hora. A ressaca era tremenda e não permitia qualquer forma de raciocínio, e talvez por isso mesmo estivesse enlouquecendo. Mulheres?! No presente momento encontrava-me plenamente largado ao mundo, chutado e indigno até do escarro verde de DEUS, e somente então realizei que eu não valia mais NADA! De acordo com o poeta, talvez o segredo da vida fosse mesmo ir “tocando em frente” e compor a nossa história ao sabor das próprias mágoas. Ah que saudade! Saudade do sorriso dela (lembra, bêbado ducaralho!). Meu coração está em branco, tão branco como uma folha de papel que nunca foi sequer tocada. Verdadeiramente, gosto de pessoas feitas de carne e osso, seres que riem e choram, e sentem na flor da pele a bosta viva de nossa existência, mas acho que agora é um pouco tarde para se refletir acerca de tudo isso, preciso mesmo é de um tempo para digerir minha vida.

Rumo ao terminal rodoviário, reparei como nunca nas escrituras há muito rabiscadas nos impávidos muros da escadaria. Caminhava como um condenado à forca, e trazendo a pistola na bagagem, saquei-a de um repente engatilhando o cão e por um breve momento atentei contra a própria vida. Alguem gritou, outros correram, e sem entender muita coisa dobrei a primeira direita logo ao fim da escadaria. Após aquele breve furor, esquivei-me por um dos corredores laterais que davam acesso às plataformas de embarque, e sem saber muito bem como nem porque, adentrei no bar mais “raíz” que encontrei. Logo à porta de entrada, bem acima do balcão, imundos pedaços de queijos e mortadelas pendiam do teto suspensos por ganchos de açougue enferrujados, e abaixo daquele fétido odor, um mendigo muito sujo clamava a piedade de algumas míseras moedas. Não pude lhe oferecer muito, até porque estava sem paciência e antipatia por aquele cara, mas mesmo assim fiz questão que matasse os restos daquela pinga bem velha e barata que eu trazia na bagagem.

Sentado de frente para a rua, degustava daquela cerveja tão matinal, observando com certo desprezo aqueles tantos transeuntes que figuravam no cenário. Momentaneamente, pude me dar conta do quanto passara a desprezar as pessoas sem motivo aparente, um mal-humor constante que se tornara uma espécie de vício, talvez um refúgio para meus últimos fracassos ou apenas outro esgotamento nervoso. Sempre é preciso culpar alguem! Tantas pessoas de grande estima que passei a destratar sem merecer, mas agora era tarde e nada poderia ser feito. Por vezes, confundia-me com personagens dos livros que lia, ou mesmo do que escrevia, e toda essa grande mistura de personalidades regadas a cerveja era capaz de confundir até mesmo meus maiores anseios e integridade. Foi em meio a todos esses pensamentos que avistei a Berenice caminhando de novo ao longe. Vinha toda linda com aquele andarzinho arrogante de sempre, saia azul, salto alto e fita no cabelo, distribuindo aqueles sorrisos muito fáceis a qualquer simpatia que se lhe agradasse. Naquele instante, tive a certeza que ela havia me visto e viria conversar, e talvez mesmo por isso parecia dispensar maior exagero em seus gestos e atenções. Quem sabe eu tivesse me tornado um grande antipático ou coisa que o valha, mas ela realmente me enchia o saco quando queria e essa era a maneira que eu pensava até então. Logo eu, que de tanto implicar até com a inocente garota, devia cair numa real e refletir sobre o quão filho da puta e inconveniente havia me tornado nos últimos tempos. Aí ela veio mesmo:

- Meu Deus, quanto tempo...! A gente devia...

- A gente não deve nada, não mais agora.

- Mas...

Deixei aquele “mas...” esmorecer no ar, e sorvendo em ávidos goles o resto de minha cerveja morna, apaguei de minha importância o último relampejo de frustração que aqueles olhos muito suplicantes me lançaram.

Apesar de não estar atrasado, corri sem necessidade à plataforma de embarque, e levado pelo ânimo da bebida, encontrava-me realmente disposto a ofender alguem sem necessidade e causar um pouco de tumulto aleatório. Como que ao acaso, um ancião esbarrara em mim sua velha valise, ao que eu mandei o velhote se foder sem o menor escrúpulo.

- Perdão? ! Como?! – disse ele.

- Esquece... – emendei arrependido de imediato. Além de velho e mal pago, ter que aturar bêbados de mal-humor... o mundo não é mesmo para os justos, velhos ou coisa parecida.

Talvez fosse ilusão, mas o motorista do ônibus me pareceu costumeiramente embriagado. A viagem transcorreu normalmente sem qualquer imprevisto chegando mesmo a ser bastante enfastiante, e quando cheguei à província de Serrana, realizei que não havia qualquer motivo para ali estar, assim como não o haveria em qualquer outro lugar. Enfim, chega de prosa! Pretendia lavar minhas roupas sujas em alguma lavanderia pública, tomando minha cerveja barata e assistindo aquelas máquinas “espetaculosas” darem conta do serviço, ou quem sabe até me entreter com alguma dona mais ajeitada... De qualquer forma, a idéia me divertiu como em velhos e idos tempos. Devo confessar que de certa maneira, essa história apesar de não se aprofundar em romances, aventuras e existencialismo, é por deveras imediatista e inusitada, sem dúvida uma má receita para qualquer célebre literatura que venha a entreter o público em geral, mas a despeito de tudo, é por deveras verídica. Gosto de pensar que a genialidade no desfecho de toda obra é o que difere o grande artista do aventureiro medíocre, e talvez por isso na lápide de meu túmulo pudesse constar “L.Walk - O AUTOR QUE NUNCA SOUBE TERMINAR SUAS OBRAS” ou mesmo “BÊBADO SAFADO, NUNCA FEZ MUITA QUESTÃO DE SER LEGAL”. Talvez melhor fosse “DESTRUIA E DIMINUIA TUDO O QUE CRIAVA”.

3 comments:

Rodrigo said...

Para Post grande, comentário grande. Conversa minha e de Mazzotti, logo após eu ler o conto de Mr Lok. Me senti afetado pelo clima da história e acho que isso refletiu na conversa. Ou eu e Mazzotti somos dois casos perdidos também.

Rodrigo says:
e ai meu querido?
Mazzotti says:
Oh, fala aí.
Rodrigo says:
como que vc esta?
Mazzotti says:
Numa nice.
Rodrigo says:
andas desaparecido por essas bandas dos bits transeuntes
Mazzotti says:
É que eu tinha esquecido a senha do MSN.
Rodrigo says:
AHuahhauahAu
Rodrigo says:
detalhe tecnico
Mazzotti says:
É verdade.
Rodrigo says:
fui para a grande maçã, ficou sabendo?
Mazzotti says:
O Guto falou.
Mazzotti says:
Fomos beber um cerva ontem.
Rodrigo says:
muito legal por lá, historias fantasticas
Rodrigo says:
sim, ele mencionou pra mim
Rodrigo says:
me mostrou a foto do seu "amiguinho"
Mazzotti says:
Que amiguinho?
Rodrigo says:
o galão
Mazzotti says:
Ah, o garrafão.
Rodrigo says:
do alambique de um nome bem popular
Rodrigo says:
rs
Rodrigo says:
onde vc comprou aquilo?
Mazzotti says:
Porra, aquilo lá foi o cunhado do Heitor que trouxe na formatura.
Mazzotti says:
De presente para ele.
Rodrigo says:
ahahahaha
Mazzotti says:
Tava encontado faz tempo.
Rodrigo says:
pinga da boa?
Mazzotti says:
Ninguém tomava aquela desgraça.
Rodrigo says:
ai vc adotou o pobre coitado ne?
Mazzotti says:
Ah, não gostei muito do sabor. Mas colocando 80% pinga, 20% água fica mais tragável.
Mazzotti says:
Isso mesmo.
Rodrigo says:
forte assim?
Mazzotti says:
Estava órfão.
Mazzotti says:
Nem é tão forte, mas é meio acre, sei lá...
Rodrigo says:
saquei
Rodrigo says:
a vida já é acre o suficiente ne? pra q q a pinga tem q ser tanto tb?
Rodrigo says:
r
Rodrigo says:
rs
Mazzotti says:
Opa.
Mazzotti says:
Ontem foi o dia prá tomar pinga cara.
Mazzotti says:
Não tinha um conhecido aqui em São Carlos, rep vazia.
Mazzotti says:
Só eu e Renato.
Rodrigo says:
E o garrafão...
Mazzotti says:
Ainda por cima a muié dele veio passar o final de semana aí.
Rodrigo says:
haha, era dia pra ficar que nem a foto do Garrincha
Mazzotti says:
Desci o nível em 4 dedos.
Rodrigo says:
que beleeeeza
Mazzotti says:
E nem fiquei ruim.
Rodrigo says:
os 20% de água
Mazzotti says:
Pinga, arroz, feijão e farinha.
Rodrigo says:
rs
Mazzotti says:
Sustança pura.
Rodrigo says:
Isso dá obra heim?
Mazzotti says:
Depois eu fui virar um cimento lá no quintal.
Rodrigo says:
Rapaz, daqui umas duas semanas vai rolar aqui o St Patricks Day, vc jah ouviu falar?
Rodrigo says:
é um feriado irlandês
Rodrigo says:
adivinha o que o povo faz
Rodrigo says:
não gosta de jogo de adivinhação?
Rodrigo says:
rs
Mazzotti says:
Bebe uísque até sair pelos olhos.
Rodrigo says:
hahaha... por aí... terei que conferir a prática
Mazzotti says:
Bebe uísque comendo uma irlandesa?
Rodrigo says:
Não sei se tem esse petisco no meio, pode ser
Rodrigo says:
Bom rapaz, vou sair fora... vou ver se pego um cinema...
Rodrigo says:
Depois nos falamos
Mazzotti says:
OK.
Rodrigo says:
[]s

Unknown said...

Bacana o conto.
Meio mórbido, mas bacana

http://neomalkovitch.blogspot.com/

Anonymous said...

uhauahuahuahaua

comecei a ler oi coment do campz e esqueci do conto... uhauhauahuahauha

[]